Arquivos mensais: maio, 2010

Data: 2010.05.30 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

organic cosmos

Sob o ponto de vista sistêmico, o dinamismo é inerente aos organismos vivos, cujas formas visíveis são “manifestações estáveis de processos subjacentes”. A compatibilidade entre os processos e as manifestações estáveis acontece quando “os processos formam modelos rítmicos – flutuações, oscilações, vibrações, ondas. Na dinâmica da auto-organzação, as flutuações são decisivas, por ser a base da ordem no mundo vivo: as estruturas ordenadas resultam de modelos rítmicos”.

A manifestação de modelos rítmicos pode ser encontrada em todos os níveis, do micro ao macrocosmo: desde os átomos que “são modelos probabilísticos”, passando pelas moléculas que “são estruturas vibratórias”, até os organismos que são modelos de flutuações “multidimensionais e interdependentes”. Ciclos de atividade e repouso, com funções que oscilam em ritmos periódicos são característicos tanto das plantas, como dos animais e dos seres humanos. “Os componentes dos ecossistemas estão interligados através de trocas cíclicas de matéria e energia, as civilizações ascendem e caem em ciclos evolutivos, e o planeta como um todo tem seus ritmos e recorrências enquanto gira em torno de seu eixo e se move ao redor do sol”.

As diferentes formas de agir e de estar no mundo são também a expressão de modelos rítmicos. “A manifestação de uma identidade pessoal única é uma importante característica dos humanos, e parece que essa identidade pode ser essencialmente uma identidade de ritmo”. Cada um de nós pode ser reconhecido pelo modo de falar, respirar, movimentar o corpo, pelos gestos que nos são peculiares, todos eles representando diferentes tipos de modelos rítmicos. Mas também existem ritmos “fixos” como, por exemplo, as impressões digitais e a caligrafia, que identificam um único indivíduo. Os modelos rítmicos que caracterizam um ser humano em sua individualidade “são diferentes manifestações do mesmo ritmo pessoal, uma pulsação interior, que é a essência da identidade pessoal”.

O ritmo tem um papel fundamental tanto na auto-organização e auto-expressão, como na percepção sensorial e na comunicação. “Quando enxergamos, nosso cérebro transforma as vibrações da luz em pulsações rítmicas dos seus neurônios. Transformações semelhantes de modelos rítmicos ocorrem no processo auditivo, e até a percepção do odor parece estar baseada em frequências que envolvem ritmos. A noção cartesiana de objetos separados e nossa experiência com máquinas fotográficas levaram-nos a supor que nossos sentidos criam alguma espécie de imagem interna que é uma reprodução fiel da realidade. Mas não é assim que a percepção sensorial funciona”. É o nosso mundo de signos, conceitos e idéias que atribui às imagens a condição de objetos separados. “A realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica”, e nossos sentidos só conseguem traduzir algumas de suas vibrações de acordo com as frequências que o nosso cérebro está sendo capaz de processar.

Assim como no processo perceptivo, o ritmo tem um importante papel nos diferentes modos de comunicação e de interação dos seres vivos. Na comunicação humana há uma sincronização e uma interligação de ritmos individuais. “Toda conversação envolve uma dança sutil” (em sua maior parte invisível, ou não percebida quando não se está atento a isso) na qual se dá uma sincronização entre: o que e como se fala, os mínimos movimentos corporais de quem fala e os movimentos correspondentes de quem ouve. Todos os envolvidos na conversação “estão entrelaçados numa sequência intrincada e precisamente sincronizada de movimentos rítmicos, que dura enquanto eles permanecem atentos e envolvidos em sua conversa”.

É possível relacionar essa dança sutil da conversação com o que diz Humberto Maturana em relação à linguagem:

A linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de relações e pertence ao âmbito das coordenações de ações, como um modo de fluir nelas. Se minha estrutura muda, muda meu modo de estar em relação com os demais e, portanto, muda meu linguajar. Se muda meu linguajar, muda o espaço do linguajeio no qual estou e mudam as interações das quais participo com meu linguajeio .

Daí a importância de reconhecermos que os processos de aprendizagem, de desenvolvimento e de evolução são expressões de processos de autotransformação e de autotranscendência. Pois os seres vivos trazem em si, potencialmente, a capacidade de superar a si mesmos, criando novas estruturas, novos comportamentos, novas formas de interagir. E é justamente essa auto-superação criativa em busca do novo que, em seu devido tempo, leva a um desdobramento ordenado da complexidade, que parece ser uma propriedade fundamental da vida, uma característica básica da dança do universo.

“Quem dança
Não é quem levanta poeira
Quem dança
é quem reinventa o chão”

(Mia Couto)

Fonte: PISTÓIA, Lenise Henz Caçula. “A perspectiva sistêmica da vida”, em Gregory Bateson e a educação: possíveis entrelaçamentos. Tese de Doutorado em Educação, UFRGS, 2009, p. 74-76.

Marly Segreto

Data: 2010.05.26 | Categoria: Oficina Ponto de Apoio, Projetos 2010 | Comentário: 1

Ontem aconteceu o terceiro encontro da turma B da Oficina Ponto de Apoio.

No trânsito entre as pessoas novas que estão chegando e a saída de alguns em função da realização de novo concurso público municipal, retomamos a origem, propósito e dinâmica do projeto, o que foi muito bom para que todos pudéssemos nos apropriar da nossa trajetória.

O diálogo já acontece de uma forma mais espontânea e ritmada e começam a surgir os “nós” que permeiam o funcionamento da equipe de trabalho. Desta turma faz parte a diretora da Casa Transitória que já pode inferir alguns pontos a serem trabalhados na sua gestão; conversamos um pouco sobre isso. Também participou pela primeira vez o Lucas, psicólogo recém-chegado que vai assumir o trabalho na Casa (veio das bandas da Paraíba e traz uma experiência de lá em locais similares); sua contribuição ontem foi importante na pontuação de alguns tópicos que emergiram, o que “movimentou” especialmente o encontro.

Oficina Ponto de Apoio - Turma B

Na dinâmica, surgiram alguns pontos fundamentais trazidos pelos participantes/ funcionários:

– A necessidade de todos falarem “a mesma língua” – traduzida em discurso e atitude.
– Um conflito entre dois funcionários que pode ser explicitado e de onde surgiu a perspectiva mais ampla de que há ruídos na forma como a comunicação acontece entre os funcionários (o que é bem comum onde há muitas pessoas que trabalham em turnos diferentes e pode ser melhorado) resignificando a questão.
– A percepção de que pontos que aparentemente são vistos como divergentes podem ser revistos como complementares;
– Vivenciamos e falamos sobre o processo da escuta do outro, do tempo de absorção do que se aprendeu e da elaboração interna para nova devolutiva externa – este foi um exercício que o grupo reconheceu que temos vivenciado nos nossos encontros.
– Na apresentação de uma dupla apresentando sua reflexão surgiu a idéia de formarmos grupos de escuta com as crianças.

E assim vamos caminhando e bem, eu diria, porque o que nos une é apenas a boa-vontade e o propósito de nos melhorarmos. Sempre me emociono em participar deste processo onde um corpus vai se configurando a partir de um modus operandi e o processo começa a caminhar por si mesmo. Tenho a perspectiva (tomara!) de que em algum momento deste processo possamos nos reconhecer nas leis do vivente propostas por Helene Trocmé-Fabre:

“O vivente está em devir, ou seja, está sempre atento em manter e atualizar o seu potencial, ligando-se ao mundo que o cerca.
- Descobrindo toda complexidade deste mundo.
- Organizando o que vê, ouve e percebe.
- Dando sentido ao que lhe acontece.
- Aprendendo a escolher, assim aprendendo a renunciar,
- e portanto, a decidir.
- Criando, assim inovando.
- Recebendo e dando, assim entrando em reciprocidade.
- Comunicando (no sentido etimológico da palavra) torna-se parceiro.”

Abraços a todos
TCris

Data: 2010.05.16 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 4

holosGenesisP. Meirieu, no artigo Educação ambiental: por quê? como? Do mundo-objeto ao mundo-projeto, oferece três pistas do que poderia ser uma proposta mais consequente para a educação ambiental:

1. “fazer existir um mundo”; 2. “fazer os outros existirem no mundo”; 3. “passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto“.

“Fazer existir um mundo”, em sua concretude e em sua diversidade, “como universo que resiste a nós e que não nos pertence”, significa ajudar a compreender que “o mundo não se reduz ao que eu gosto, ao que quero ou ao que desejaria que ele fosse, mas que ele existe, e que ele existe exteriormente a mim mesmo… ainda que eu faça parte dele”.

“Fazer os outros existirem no mundo”… não é simples. Trata-se de “construir a distinção básica entre espaço privado e espaço público”. De compreender que “os interesses privados não podem ser impostos ou competir ferozmente com o espaço público”. E, ao mesmo tempo, reconhecer o espaço privado como direito à intimidade, como um espaço em que cada um pode se expressar, com suas necessidades e desejos, em seu processo de autodescoberta. Da difícil confrontação entre os interesses individuais entre si e com o espaço público, “pode nascer o interesse comum. O interesse de todos. O do conjunto dos homens e do planeta em que vivem”.

“Passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto”

O que é um mundo-objeto (MO)? O que é um mundo-projeto (MP)?

Um MO é o mundo shopping-center, do consumismo. Um MP é o “mundo-tesouro, espaço de busca oferecido à nossa inventividade”.

Um MO “é o mundo que eu possuo, que me fascina, me aterroriza, me espanta…”. Um MP “é o mundo que eu interrogo, questiono, interpelo…”.

Um MO “é o mundo como totalidade exterior a mim, que me condena ao parasitismo”. Um MP “é o mundo como conjunto de um universo de interações, e sobre o qual, onde quer que esteja, eu posso agir”.

Um MO “é o mundo em que o eu é prisioneiro do nós, o nós prisioneiro do a gente”. Um MP “é o mundo em que o eu participa livremente do nós, em que o nós é gerador de solidariedade”.

Um MO “é o mundo em que preciso me impor, conquistar um lugar ao sol, encontrar um grupo que me aceite em seu território”. Um MP “é o mundo em que sou aceito em minha singularidade assumida e que me convida a nele exercer um papel”.

Um MO “é o mundo em que me submeto à lei imposta pelos outros”. Um MP “é o mundo em que participo da elaboração da lei”.

Um MO “é o mundo em que a imagem se impõe a mim como opinião normativa”. Um MP “é o mundo em que posso contestar a opinião buscando a minha verdade”.

Um Mo “é o mundo em que a organização é percebida como dependente da ordem das coisas”. Um MP “é o mundo em que a organização é percebida como dependendo da vontade dos homens”.

Um Mo “é o mundo que está unicamente nas mãos das forças econômicas”. Um MP “é o mundo que depende da decisão política, da vontade de todos que se associam livremente e que recusam toda forma de imposição, inclusive a do mercado”.

“A Educação Ambiental, tal como tentei propor, é uma educação para a responsabilidade e para a cidadania planetária, e como tal, ela é o próprio exercício (…) do princípio de responsabilidade em relação ao futuro (…), a pedra de toque de nossa moral coletiva” – finaliza Meirieu.

MEIRIEU, Philippe. Éduquer à l’environnement: pourquoi? comment? – Du monde-objet au monde-projet
http://www.meirieu.com/ARTICLES/MONDE%20OBJET_PROJET-RTF.pdf

P. Meirieu é professor universitário em Ciências da Educação – Lumière-Lyon 2 – França. Responsável pedagógico da cadeia de televisão CAP CANAL. Dirige a coleção “Pédagogies” da ESF editor.

Imagem – http://transnet.ning.com/forum/topics/educacao-ambiental-e-a-onda

Compilação e tradução – Marly Segreto

Data: 2010.05.12 | Categoria: Cenários, Notícias, Projetos 2010 | Comentário: 5

“Ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho:
os homens se libertam em comunhão.” (Paulo Freire)

CEA - Canto de Ler   abril 2010
Canto de Ler
Centro de Educação Ambiental Avelino Peixe Comeirão Filho
Fundação Planeta Terra
Itapeva – SP

Estou especialmente contente depois que a lanchonete da Sala Verde foi transformada em um re-CANTO DE LER – que agora nutre mentes, corações, a convivência e criatividade humanas – o que convenhamos, é bem mais necessário!Esta é a intenção que alimenta este espaço cultural recém-criado no Centro de Educação Ambiental Avelino Peixe Comeirão Filho, em Itapeva – SP, possível graças a uma feliz conjuntura de circunstâncias.

Eu, como colaboradora voluntária do CEA, participo da dinamização deste espaço, montando uma programação para que ele funcione como um ponto de cultura dentro da Sala Verde. Uma parceria prazerosa e agradável, totalmente baseada na cooperação voluntária, que pretende contribuir para a formação das pessoas que visitam o lugar.

E o que já está acontecendo lá, neste seu primeiro mês de existência? Muitas coisas. O nome Re-CANTO DE LER faz alusão não só à leitura de livros e textos diversificados, mas principalmente à leitura do mundo preconizada por Paulo Freire:

“Para mim, desde o início, nunca foi possível separar a leitura das palavras da leitura do mundo.. Segundo, também não era possível separar a leitura do mundo, da escrita do mundo. Ou seja, linguagem – e isso é uma questão lingüística – não pode ser entendida sem um compreensão crítica da presença dos seres humanos no mundo. A linguagem não é exclusivamente um meio de expressão das impressões que temos diante do mundo. A linguagem é também conhecimento em si. E a linguagem implica a inteligibilidade do mundo que não existe sem a comunicação. … Deve-se primeiramente ler o mundo no qual tais palavras existem.” (Pedagogia dos sonhos possíveis – p. 56)

Neste espírito então, o Re-CANTO de LER é um local de prática de leitura – do mundo, de textos em diferentes linguagens, de depoimentos das pessoas, da natureza em volta. Um Ateliê de Leitura, bem ao estilo da Companhia!

Apareça lá para visitar a gente!

TCris

Data: 2010.05.06 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 2

Escuta

Vários autores interessados na questão da formação do humano (R. Barbier, P. Bordieu, D. Bois, I. Gerber, etc.) vêm falando, à sua maneira, de um retorno do sensível, de um despertar para o sensível.

Em nossa vida pessoal e profissional, em atividades voluntárias e nas práticas formativas da Companhia temos percebido o valor, a importância de desenvolver e exercitar especialmente a escuta sensível (como pode ser visto em nosso FAQ).

A cada dia, percebemos o quanto esse escutar-agir, característico da escuta sensível, vai se incorporando em nós.

É claro que somos influenciados pelos esquemas de percepções, representações e ações que nos vêm da família e do grupo sócio-cultural a que pertencemos, e que podem nos levar a um conformismo inconsciente. Também é claro que os papéis e posições que assumimos em diferentes organizações nos impõem obediência à ordem estabelecida por elas, oferecendo em troca uma ilusória estabilidade.

Mas o que isso tem a ver com a escuta sensível? É que na escuta sensível nos recusamos a fixar o outro numa posição, num território, negando-lhe a abertura para outros modos de existência. Ela supõe uma inversão da atenção. Ao invés de procurar situar o outro em seu território, tratamos de reconhecê-lo em seu ser, em sua qualidade de pessoa complexa dotada de liberdade e de imaginação criativa. Desse modo, podemos aprender a sentir o seu universo afetivo, imaginário e cognitivo, para poder compreender suas atitudes e comportamentos, seus sistemas de idéias e valores, de símbolos e mitos, sua existencialidade interna.

Não é fácil… Pois quem escuta começa por não interpretar, por suspender todo julgamento, buscando sentir e compreender o sentido adicional que se manifesta na situação, e que vai além da fala, deixando-se surpreender pelo outro e pelo desconhecido.

É claro que quem escuta é também composto por sua experiência, sua formação, suas leituras, que poderão ser disponibilizadas quando necessárias, se o outro desejar. Mas não se deve perder de vista que cada experiência é única, não podendo ser reduzida a um modelo qualquer. E também é preciso estar aberto às reformulações, próprias e do outro, pois tudo pode ser retraduzido em função do contexto.

A escuta sensível parece ser, sobretudo, uma experiência meditativa. Mas, não aquela que pode levar a um transe místico, a um êxtase exuberante. E sim, simplesmente, a experiência de estar presente no que acontece, aqui e agora, no menor gesto, na menor atividade. Nela, há uma suspensão não só de toda teoria e conceitualização, mas também de toda representação imaginária do mundo, e inclusive do desejo de fazer algo.

Quando nos encontramos nesse estado meditativo – de presença em si, de esvaziamento e atenção – nossa consciência não está dispersa, nos encontramos em um outro nível de percepção. É por isso que a escuta sensível fica mais fina, mais aprimorada. E passa a ser uma escuta-ação espontânea, atuando até mesmo sem o pensamento. E a ação é imediata, adaptando-se e respondendo muito melhor ao que se apresenta, em benefício de todos.

Fonte: BARBIER, René. “Las nociones-bifurcaciones en la investigación-ación”, em cuadernos Visión Docente Con-Ciencia, Puerto Vallarda: C. E. U. Arkos, Ano VIII, nº 45, nov-dez 2008, p. 05-20.

Marly Segreto