Arquivos mensais: fevereiro, 2012

Data: 2012.02.24 | Categoria: Solilóquio | Comentário: 0

(…) [Abel] não respondeu, mas acenou com a cabeça lentamente. A voz de Silvestre, as palavras que ouvia, alteravam a ordem das suas idéias. Uma luz, não muito viva mas insistente, introduzia-se no seu espírito, iluminava sombras e desvãos.” p.202

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“Silvestre dissera que, pelo menos, a sua vida lhe ensinara a ver mais longe que a sola dos sapatos que consertava, ao passo que a Abel a vida não fizera mais que dar-lhe o poder de adivinhar a existência de algo oculto, de algo capaz de dar um sentido concreto à sua existência. Mais valera não ter recebido este poder. Viveria tranquilo, teria a tranquilidade do poder adormecido, tal como acontece ao comum das gentes. O comum das gentes pensava como é estúpida esta expressão! Eu sei lá o que é o comum das gentes! Olho para milhares de pessoas durante o dia, vejo, com olhos de ver, dezenas. Vejo-as graves, risonhas, lentas, apressadas, feias ou belas, vulgares ou atraentes, e chamo-lhes o comum das gentes. Que pensará cada uma delas a meu respeito? Também eu ando lento ou apressado, grave ou risonho. Para algumas serei feio, para outras serei belo, ou vulgar, ou atraente,. No fim de contas, também eu faço parte do comum das gentes. Também eu terei, para alguns, o pensamento adormecido. Todos nós ingerimos diariamente a nossa dose de morfina que adormece o pensamento. Os hábitos, os vícios, as palavras repetidas, os gestos repisados, os amigos monótonos, os inimigos sem ódio autêntico, tudo adormece. Vida plena! …Quem há aí que possa declarar que vbive plenamente? Todos trazemos ao pescoço a canga da monotonia, todos esperamos, sabe o diabo o quê! Sim, todos esperamos! Mais confusamente uns que outros, mas a expectativa é de todos… O comum das gentes!… p.254

(José Saramago. Clarabóia. Companhia das Letras, 2011)

Data: 2012.02.19 | Categoria: Solilóquio | Comentário: 1

Cascata roxa - Glicinias no Uruguai - Antonio J.F.Bongi

” O único sentido oculto das coisas é que elas não têm nenhum sentido oculto. “

(…)” O sentido oculto da vida… Mas o sentido oculto da vida é não ter a vida sentido oculto nenhum. Abel conhecia a poesia de Pessoa. Fizera dos seus versos uma outra Biblía. Talvez não os compreendesse completamente, ou visse neles o que lá não estava. De qualquer maneira, e embora desconfiasse de que, em muitos passos, Pessoa troçava do leitor e que, parecendo sincero, o ludibriava, habituara-se a respeitá-lo, até nas suas contradições. E se, nao tinha dúvidas acerca da sua grandeza como poeta, parecia-lhe, por vezes, especialmente naqueles dias absurdos de desencanto, que na poesia de Pessoa havia muito de gratuitidade. E que mal há nisso? – pensava Abel. _ Não pode a poesia ser gratuita? Pode sem dúvida, e o mal não é nenhum. Mas, o bem? Que bem há na poesia gratuita? A poesia é, talvez, como uma fonte que corre, é como a água que nasce da montanha, simples e natural, gratuita em si mesma. A sede está nos homens, a necessidade está nos homens , e é só porque elas existem que a água deixa de ser desinteressada. Mas será assim a poesia?

(José Saramago. Clarabóia. Companhia das Letras, 2011. p.251)

Data: 2012.02.11 | Categoria: Solilóquio | Comentário: 0

” Ao lado a irmã dormia tranquilamente. A sua respiração sossegada, a imobilidade do seu corpo, exasperavam-na. Por duas vezes se levantou e se aproximou da janela. Palavras soltas, frases incompletas, gestos adivinhados, tudo lhe circulava no cérebro. Era como um disco falhado que repete infinitamente a mesma frase musical, que de bela se torna odiosa pela repetição. Dez, cem vezes as mesmas notas se sucedem , se entrelaçam, se confundem, e delas fica um som único, obsediante, terrível, implacável. Sente-se que um minuto só dessa obsessão será a loucura, mas o minuto passa, a obsessão continua, e a loucura não vem. Em vez disso, a lucidez redobra, multiplica-se. O espírito abrange horizontes, caminha para lá e para além, não há fronteiras que o detenham e por cada passo em frente a lucidez torna-se mais acabrunhante. Abandoná-la, quebrar o som, esmagá-lo sob o silêncio, seria a tranquilidade e o sono.” p. 169

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“Ou talvez Silvestre e Mariana fossem diferentes. Diferentes de todas as pessoas que conhecera até aí. Mais humanas, mais simples, mais abertas. Que é que dava à pobreza de seus hospedeiros aquele som de metal puro?…A felicidade? Será pouco. A felicidade comparticipa da natureza do caracol, que se retrai quando lhe tocam. Mas, a não ser a felicidade, o que poderia ser então? Talvez a compreensão… Mas a compreensão é uma palavra apenas. Ninguém pode compreender outrem, se não for esse outrem. E nibnguém pode ser ao mesmo tempo, outrem de si mesmo.
O fumo continuava a escapar-lhe do cigarro esquecido. Estará na natureza de certas pessoas esta capacidade de desprender de si mesmas algo que transfigura a vida? Algo, algo… Algo, pode ser tudo ou quase nada. O que interessa é saber o quê? Mas então vejamos, ponhamos a pergunta: o quê? … pensou, tornou a pensar, e no fim, tinha diante de si apenas a pergunta. Parecia um beco sem saída. Que pessoas são essas? Que capacidade é essa? Em que consiste a transfiguração? Não estarão estas palavras demasiado longe do que querem exprimir? A circunstância de ser forçoso o uso das palavras, não dificultará a resposta? Mas, nesse caso, como achá-la? Alheio ao esforço especulativo de Abel, o cigarro consumiu-se até aos dedos que o seguravam.”
P.188

(José Saramago. Clarabóia. Companhia das Letras, 2011)

Data: 2012.02.03 | Categoria: Solilóquio | Comentário: 0

(…) [Abel] ” Vivo assim porque quero. Vivo assim porque não quero viver de outro modo. A vida como os outros a entendem não tem valor para mim. Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem. Quando me sinto preso, corto o tentáculo. Às vezes faz doer, mas não há outro remédio. Compreende?… – Duro? Não. Sou frágil, acredite. E é a certeza de minha fragilidade que me leva a furtar o corpo aos laços. Se me dou, se me deixo prender, estou perdido.” p. 124

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“Às vezes, Emílio pensava se não estaria doido, se todo este modo de viver, estes conflitos, estas tempestades, esta incompreensão de todas as horas, não seriam afinal, a consequência de um desequilíbirio nervoso. Na rua era, ou supunha ser, uma criatura normal, capaz de rir ou sorrir como toda a gente. Mas bastava-lhe passar a soleira da porta para cair em cima de si um peso insuportável. Sentia-se como um homem prestes a afogar-se, que enche os pulmões não já do ar que lhe permitiria viver, mas da água que o mata. Pensava que tinha o dever de se declarar satisfeito com o que a vida lhe dera, que outros havia menos afortunados e viviam contentes. Mas a comparação não lhe trazia tranquilidade. Não sabia, mesmo, o que era e onde estava o que he daria a tranquilidade. Não sabia, ainda, se esta tranquilidade existia em alguma parte. O que sabia, com uma experiência de anos, é que não a tinha. E sabia também que a desejava, como o náufrago a prancha, como a semente o sol.” p.156


(Jose Saramago. Claraboia. Companhia das Letras, 2011)