(…) [Abel] ” Vivo assim porque quero. Vivo assim porque não quero viver de outro modo. A vida como os outros a entendem não tem valor para mim. Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem. Quando me sinto preso, corto o tentáculo. Às vezes faz doer, mas não há outro remédio. Compreende?… – Duro? Não. Sou frágil, acredite. E é a certeza de minha fragilidade que me leva a furtar o corpo aos laços. Se me dou, se me deixo prender, estou perdido.” p. 124
“Às vezes, Emílio pensava se não estaria doido, se todo este modo de viver, estes conflitos, estas tempestades, esta incompreensão de todas as horas, não seriam afinal, a consequência de um desequilíbirio nervoso. Na rua era, ou supunha ser, uma criatura normal, capaz de rir ou sorrir como toda a gente. Mas bastava-lhe passar a soleira da porta para cair em cima de si um peso insuportável. Sentia-se como um homem prestes a afogar-se, que enche os pulmões não já do ar que lhe permitiria viver, mas da água que o mata. Pensava que tinha o dever de se declarar satisfeito com o que a vida lhe dera, que outros havia menos afortunados e viviam contentes. Mas a comparação não lhe trazia tranquilidade. Não sabia, mesmo, o que era e onde estava o que he daria a tranquilidade. Não sabia, ainda, se esta tranquilidade existia em alguma parte. O que sabia, com uma experiência de anos, é que não a tinha. E sabia também que a desejava, como o náufrago a prancha, como a semente o sol.” p.156
(Jose Saramago. Claraboia. Companhia das Letras, 2011)
