Arquivos diários: fevereiro 3rd, 2012

Data: 2012.02.03 | Categoria: Solilóquio | Comentário: 0

(…) [Abel] ” Vivo assim porque quero. Vivo assim porque não quero viver de outro modo. A vida como os outros a entendem não tem valor para mim. Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem. Quando me sinto preso, corto o tentáculo. Às vezes faz doer, mas não há outro remédio. Compreende?… – Duro? Não. Sou frágil, acredite. E é a certeza de minha fragilidade que me leva a furtar o corpo aos laços. Se me dou, se me deixo prender, estou perdido.” p. 124

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“Às vezes, Emílio pensava se não estaria doido, se todo este modo de viver, estes conflitos, estas tempestades, esta incompreensão de todas as horas, não seriam afinal, a consequência de um desequilíbirio nervoso. Na rua era, ou supunha ser, uma criatura normal, capaz de rir ou sorrir como toda a gente. Mas bastava-lhe passar a soleira da porta para cair em cima de si um peso insuportável. Sentia-se como um homem prestes a afogar-se, que enche os pulmões não já do ar que lhe permitiria viver, mas da água que o mata. Pensava que tinha o dever de se declarar satisfeito com o que a vida lhe dera, que outros havia menos afortunados e viviam contentes. Mas a comparação não lhe trazia tranquilidade. Não sabia, mesmo, o que era e onde estava o que he daria a tranquilidade. Não sabia, ainda, se esta tranquilidade existia em alguma parte. O que sabia, com uma experiência de anos, é que não a tinha. E sabia também que a desejava, como o náufrago a prancha, como a semente o sol.” p.156


(Jose Saramago. Claraboia. Companhia das Letras, 2011)