Arquivos de categorias: Agenciamento

Data: 2011.01.31 | Categoria: Agenciamento, Diálogos - PONTO EM QUESTÃO | Comentário: 2

” P – Deixei uma posição anterior, não por trocá-la por outra, mas porque a posição de antes era apenas um passo numa caminhada. No pensamento o que permanece é o caminho. E os caminhos do pensamento guardam consigo o mistério de podermos caminha-los para frente e para trás, trazem até o mistério de o caminho para trás nos levar para frente.” (p.80-81)

(…)

J – A nós japoneses não estranha que uma conversa deixe indeterminado justamente aquilo a que se visa e até mesmo o deixe recolhido no indeterminável.

P – E´o que possibilita o êxito de toda conversa entre pensadores. A conversa chega então a perceber, por si mesma, que o indeterminável tão somente não foge, mas desenvolve a sua força de recolhimento de modo cada vez mais irradiante, ao longo da caminhada.”

Quero apenas me encantar com o inusitado caminho que as palavras abrem em nós… para onde nos conduzirá?

TCris

893147 soap bubble - www.scx.hu//

Data: 2010.11.22 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Itinerância | Comentário: 0

O Carro de Feno - Bosch
O Carro de feno – Hieronymus Bosch

Fomos para Itaici – um local aprazível e tranquilo que descansa o corpo e inspira a alma. Fizemos um curso/retiro sobre nosso olhar para o Sagrado através do estudo dos Ícones que o professor – o jesuíta Pe. Fernandes, diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura, ligado a PUC-Rio -, tão brilhantemente ministrou.

Finalizando o curso ele apresentou a obra medieval de Hieronymus Bosch, O Carro de Feno, criada cerca de 1516 e hoje alojada no Museu do Prado de Madri. A obra tríptica baseia-se em um provérbio flamengo que diz: “O mundo é como um carro de feno e cada um colhe o que pode”. O feno, como matéria-prima necessária na idade média, servia para alimentar os animais que garantiam a subsistência, aquecer do frio e iluminar como pavios de tochas, mas também era de frágil consistência pois apodrecia e era altamente inflamável. Após a apresentação detalhada da leitura simbólica das imagens criadas pelo artista e conduzida pelo professor, o grupo de participantes do curso chegou à conclusão inequívoca que a pintura atemporal retrata também os dias de hoje.

Disse-nos o professor, que 80% da produção cultural da humanidade é uma tentativa de apreender, registrar, flagrar o Sagrado (o Invisível que está além de nós). Foi aí que fez uma importante distinção: o que achamos bonito pertence à dimensão filosófica da Estética (como área do Conhecimento) e onde existe a Beleza temos a manifestação do Sagrado. Aprendi então que existe uma Teologia da Beleza, o que muito me encantou, pois sempre acreditei leigamente que a Beleza educa e transforma.

Abraços a todos
TCris e Monica

Data: 2010.09.03 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

desaprender
Muita coisa aprendi
No decurso da minha vida
Mas só no fim da vida
Aprendi a arte dificílima
De desaprender…
Desaprender os erros sem conta
Que os sentidos percebem
Na sua erudita ignorância…
Aprendera ele que os fatos externos
São a própria Realidade.
Aprendera que este mundo
Que os sentidos percebem
E o intelecto concebe,
São a realíssima
E única Realidade…
E por largos anos
Andei escravizado por essa ilusão.
Pois, que admira?
Se, por tantos séculos e milênios,
Dormira a humanidade nas trevas,
Como poderia eu, em poucos decênios,
Despertar para a luz?
Até que, finalmente, descobri
A Realidade para além das facticidades,
A alma do eterno Ser
No corpo desse efêmero parecer.
Hoje sei que os fatos são meros reflexos
No espelho bidimensional de tempo e espaço,
Reflexos da Realidade,
Que está em sentido oposto
A esses fatos refletidos
No espelho de tempo e espaço.

Mas só Deus sabe quanto esforço,
Quantos sofrimentos,
E quanta agonia me custou
Essa nova atitude,
Essa meia-volta que tive de dar
Ante o espelho do mundo das velhas ilusões,
Para enxergar o novo mundo da verdade!
Esse movimento de 180 graus,
Que dei em face do refletor,
Essa conversão dos conhecidos finitos
Para o desconhecido Infinito
Me custou o holocausto do meu ego,
Esse sangrento egocídio,
Que a verdade me exigiu.

Mas agora, de costas para os fatos
E de rosto para a Realidade,
Me sinto grandemente liberto
E jubilosamente feliz
E, em vez de amar o mundo sem Deus,
Amo o mundo em Deus
Porque vejo em cada fato efêmero
O reflexo da Realidade eterna.

(Huberto Rohden – Escalando o Himalaia – Ed. Martin Claret)

Huberto Rohden (1893 – 1981) filósofo, educador e teólogo catarinense, radicado em S. Paulo. Padre jesuíta durante o início da carreira literária, escreveu mais de 100 obras enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorealização. Graduou-se em Ciências, Filosofia e Teologia pelas Universidades de Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). Fundador da Instituição Cultural e Beneficente Alvorada (1952), lecionou na Universidade de Princeton e na American University (EUA), e na Universidade Mackenzie (SP).

Imagem obtida em: http://reserva-literaria.blogspot.com

Data: 2010.07.20 | Categoria: Agenciamento, Cenários, Sons & Imagens | Comentário: 2

Antonio Vitor   Pavilh  o Desativado   Riacho Doce   SB

Fonte: www.saobernardo.sp.gov.br/secretarias/sec/cul…

“Para mim, o caminho do Mistério passa pelo Real. Vem daí, quero crer, o imperativo do circunstancial em meu trabalho, empenhado sempre no delineamento de situações humanas, sejam elas triviais feito as do cotidiano, ou mais visivelmente solenes como Amor, Nascimento e Morte. Do contato com o circunstancial nasce-me, enfim, o impulso de trabalhar: o desejo de dar forma a visões, estados de alma, inquietudes geradas pela constatação de que o Real existe.” Antonio Vitor

http://www.dangaleria.com.br/exposicao/expovitor/realidade.htm

Data: 2010.07.16 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 0

O HOMEM QUE CORRE… QUE CORRE… O HOMEM

Mal  vitch. L homme qui court 1

Trinta quadrados fazem cantar as cores:
vinte para representar o céu
e dez para representar a terra.

Casa branca, teto vermelho,
casa vermelha, teto preto.
Cruz vermelha, cruz branca:
um crucifixo plantado na terra?
Uma espada ensanguentada?
Signos erigidos, fixados,
ferindo o azul do céu,
apoiados no horizonte.

O horizonte, como uma esteira rolante
de faixas que desfilam,
vermelho contra negro,
negro contra verde,
branco contra amarelo…

Cores pisoteadas,
com grandes passos,
um homem de torso verde,
um homem sem rosto
passa a fronteira do céu.

O infinito se estende diante dele.
É “O homem que corre”
de Casemir Malévitch.

Richard Nicolas

Malevitch. capaMalevitch.contracapaMalevitch.quebra cabe  a 1 2 3

Obras de Malevitch na Internet:

http://www.artchive.com/artchive/M/malevich.html

http://www.artcyclopedia.com/artists/malevich_kasimir.html

Adriana Caccuri

Data: 2010.07.13 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 4

A CRUZ E SEUS SENTIDOS

cruz florida passoapasso.weblog.com.pt

Em todos os Encontros da Companhia de Aprendizagem adotamos uma imagem simbólica, que mobiliza o entrecruzamento das dimensões do sentido – como orientação, significado e sensibilidade – do que estamos produzindo juntos. Desta vez, emergiu a imagem da Cruz, que nos fez batizar o morro em que nos reunimos no 1º dia de Morro da Cruz.

A presença da cruz é visível na natureza: no ser humano de braços abertos, no vôo dos pássaros… e nas construções humanas: no mastro do navio; no desenho das ruas, avenidas e praças das cidades; no recorte, ordenação e medida dos espaços sagrados, como os templos…

Longe de pertencer exclusivamente ao cristianismo, a cruz é um símbolo que aparece sob formas diversas (e com uma pluralidade de sentidos, como todos os símbolos), em quase toda parte do mundo (Egito, China, Creta…), desde épocas bem remotas.

A tradição cristã enriqueceu o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da paixão e da salvação do Cristo. Ela simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Havendo uma distinção entre a cruz do patíbulo e a Cruz Gloriosa, signo do Cristo Ressuscitado (1).

Juntamente com o centro, o círculo e o quadrado, a Cruz é um dos quatro símbolos fundamentais, estabelecendo uma estreita relação com os outros três: “pela intersecção de suas duas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas” (2).

A Cruz associa-se à simbólica do quaternário, representando-o em seu aspecto “dinâmico”, enquanto o quadrado representa-o em seu aspecto “estático” (3). A correspondência com o quaternário ilustra a repartição dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, e de suas qualidades tradicionais: quente, seco, úmido e frio (1).

Apontando para os quatro pontos cardeais, a Cruz é a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem, cuja orientação total exige um triplo acordo: do sujeito em relação a si mesmo; do espaço em relação aos pontos cardeais terrestres; do tempo em relação aos movimentos dos astros (2).

A cruz apresenta, ainda, o caráter de símbolo ascensional, sendo análoga à Árvore da Vida, à ponte e à escada.

Nela se juntam o céu e a terra… Nela se confundem o tempo e o espaço… Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima (2).

René Guénon estabelece uma interessante relação entre o simbolismo do Tecido e da Cruz:

Para melhor compreender o significado deste simbolismo, é preciso lembrar primeiramente que o urdume, formado por fios esticados sobre o tear, representa o elemento imutável e principial, enquanto que os fios da trama, passando em meio ao urdume pelo vaivém da navete, representam o elemento variável e contingente, ou seja, as aplicações do princípio a tais ou quais condições particulares. Por outro lado, se considerarmos um fio do urdume e outro da trama, perceberemos imediatamente que seu cruzamento forma uma cruz, da qual eles são respectivamente a linha vertical e a horizontal; e todo ponto do tecido, sendo assim o ponto de encontro de dois fios perpendiculares entre si, é por isso mesmo o centro de uma tal cruz. Ora, (…) a linha vertical representa aquilo que une entre si todos os estados de um ser ou todos os graus da Existência, religando seus pontos correspondentes, enquanto que a linha horizontal representa o desenvolvimento de um destes estados ou de um destes graus. (…) podemos dizer que o sentido horizontal figurará, por exemplo, o estado humano, e o sentido vertical o que é transcendente em relação a este estado… (4)

Para Guénon, o símbolo da cruz é uma união dos contrários…

Marly Segreto

(1) Cirlot, Juan-Eduardo. Diccionario de símbolos. Barcelona: Labor, 5ª ed., 1982, p. 154-156.
(2) Chevalier, J. & Gheerbrandt, A. Dicionário de Símbolos. 15º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 309-317.
(3) Guénon, René. Os símbolos da ciência sagrada. São Paulo: Pensamento, 9ª ed., 1993. p. 354, nota 4.
(4) capítulo  XIV  de Guénon, R. Le Symbolisme de la Croix – “O simbolismo do tecido” (Les Éditions Vêga, Paris 1983)

http://www.reneguenon.net/guenontextostecido.html

Foto: cruz florida – passoapasso.weblog.com.pt

Data: 2010.06.14 | Categoria: Agenciamento, Itinerância, Trans | Comentário: 0

Em clima de Copa do Mundo, partilho aqui um link que me foi enviado pela Vera Laporta, muito interessante, sobre o universo linguístico, simbólico, além de outras dimensões da realidade externa e aparentemente concreta.

Trata-se principalmente de resgatar o contexto filosófico-linguístico de onde surge a expressão Ubuntu, agora se popularizando na mídia, em função da Copa do Mundo na Africa do Sul.

Spectrum   Greg Spalenka -http://spalenka.com/transfer/

(,,,) “Para melhor compreensão do Nommo na cultura Bantu, podemos acrescentar os conceitos de totalidade e de Ubuntu das línguas Bantu (FOSTER, 2006), (NGOENHA, 2006). A noção de totalidade é uma importante no mundo bantu. A totalidade de toda a existência seja material, espiritual e humana. A totalidade é um aspecto preponderante do cosmo. A totalidade pode ser descoberta em todas as esferas da visão de mundo das sociedades bantu. Na criação do universo o criador fez como que tudo que existe tivesse uma relação, esta relação possui uma dinâmica de transformação, podendo ser alterada pelos Muntu, visíveis e invisíveis. A noção de totalidade é semelhante a noção de sistema na matemática atual ocidental, onde seria um conjunto completo de tudo que existe e das relações passiveis entre eles. O criador realizou a criação ou continua realizado tendo como fator importante a harmonia e o equilíbrio. Entretanto a harmonia e equilíbrio são variáveis, existe a necessidade de atos dos Bantu (pessoas visíveis e invisíveis) para preservação ou constante restabelecimento da harmonia e do equilíbrio.

Na sociedade o Ubuntu representa a existência respeitosa e equilibrada entre os seres da natureza. No Ubuntu repousa a comunidade e suas relações sócias baseadas na tradição, na ética social e no reconhecimento de todos como indispensáveis. A identidade e a personalidade dos indivíduos é parte do Ubuntu. Este Ubuntu é a aplicação do conceituo de totalidade as relações humanas e as sociedades existentes. O Nommo tem haver com a preservação da harmonia.

1- Dado o preâmbulo da forma terminamos aqui como começamos.

Na raiz filosófica africana denominada de Bantu, o termo NTU designa a parte essencial de tudo que existe e tudo que nos é dado a conhecer à existência. O Muntu é a pessoa, constituída pelo corpo, mente, cultura e principalmente, pela palavra. A palavra com um fio condutor da sua própria história, do seu próprio conhecimento da existência. A população, a comunidade é expressa pela palavra Bantu. A comunidade é histórica, é uma reunião de palavras, como suas existências. No Ubuntu, temos a existência definida pela existência de outras existências. Eu, nós, existimos porque você e os outros existem; tem um sentido colaborativo da existência humana. Neste texto demos uma possibilidade de introdução a cultura e a filosofia das sociedades Bantu. “

Confira o artigo NTU de Henrique Cunha Júnior

Abraços
TCris

Data: 2010.05.30 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

organic cosmos

Sob o ponto de vista sistêmico, o dinamismo é inerente aos organismos vivos, cujas formas visíveis são “manifestações estáveis de processos subjacentes”. A compatibilidade entre os processos e as manifestações estáveis acontece quando “os processos formam modelos rítmicos – flutuações, oscilações, vibrações, ondas. Na dinâmica da auto-organzação, as flutuações são decisivas, por ser a base da ordem no mundo vivo: as estruturas ordenadas resultam de modelos rítmicos”.

A manifestação de modelos rítmicos pode ser encontrada em todos os níveis, do micro ao macrocosmo: desde os átomos que “são modelos probabilísticos”, passando pelas moléculas que “são estruturas vibratórias”, até os organismos que são modelos de flutuações “multidimensionais e interdependentes”. Ciclos de atividade e repouso, com funções que oscilam em ritmos periódicos são característicos tanto das plantas, como dos animais e dos seres humanos. “Os componentes dos ecossistemas estão interligados através de trocas cíclicas de matéria e energia, as civilizações ascendem e caem em ciclos evolutivos, e o planeta como um todo tem seus ritmos e recorrências enquanto gira em torno de seu eixo e se move ao redor do sol”.

As diferentes formas de agir e de estar no mundo são também a expressão de modelos rítmicos. “A manifestação de uma identidade pessoal única é uma importante característica dos humanos, e parece que essa identidade pode ser essencialmente uma identidade de ritmo”. Cada um de nós pode ser reconhecido pelo modo de falar, respirar, movimentar o corpo, pelos gestos que nos são peculiares, todos eles representando diferentes tipos de modelos rítmicos. Mas também existem ritmos “fixos” como, por exemplo, as impressões digitais e a caligrafia, que identificam um único indivíduo. Os modelos rítmicos que caracterizam um ser humano em sua individualidade “são diferentes manifestações do mesmo ritmo pessoal, uma pulsação interior, que é a essência da identidade pessoal”.

O ritmo tem um papel fundamental tanto na auto-organização e auto-expressão, como na percepção sensorial e na comunicação. “Quando enxergamos, nosso cérebro transforma as vibrações da luz em pulsações rítmicas dos seus neurônios. Transformações semelhantes de modelos rítmicos ocorrem no processo auditivo, e até a percepção do odor parece estar baseada em frequências que envolvem ritmos. A noção cartesiana de objetos separados e nossa experiência com máquinas fotográficas levaram-nos a supor que nossos sentidos criam alguma espécie de imagem interna que é uma reprodução fiel da realidade. Mas não é assim que a percepção sensorial funciona”. É o nosso mundo de signos, conceitos e idéias que atribui às imagens a condição de objetos separados. “A realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica”, e nossos sentidos só conseguem traduzir algumas de suas vibrações de acordo com as frequências que o nosso cérebro está sendo capaz de processar.

Assim como no processo perceptivo, o ritmo tem um importante papel nos diferentes modos de comunicação e de interação dos seres vivos. Na comunicação humana há uma sincronização e uma interligação de ritmos individuais. “Toda conversação envolve uma dança sutil” (em sua maior parte invisível, ou não percebida quando não se está atento a isso) na qual se dá uma sincronização entre: o que e como se fala, os mínimos movimentos corporais de quem fala e os movimentos correspondentes de quem ouve. Todos os envolvidos na conversação “estão entrelaçados numa sequência intrincada e precisamente sincronizada de movimentos rítmicos, que dura enquanto eles permanecem atentos e envolvidos em sua conversa”.

É possível relacionar essa dança sutil da conversação com o que diz Humberto Maturana em relação à linguagem:

A linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de relações e pertence ao âmbito das coordenações de ações, como um modo de fluir nelas. Se minha estrutura muda, muda meu modo de estar em relação com os demais e, portanto, muda meu linguajar. Se muda meu linguajar, muda o espaço do linguajeio no qual estou e mudam as interações das quais participo com meu linguajeio .

Daí a importância de reconhecermos que os processos de aprendizagem, de desenvolvimento e de evolução são expressões de processos de autotransformação e de autotranscendência. Pois os seres vivos trazem em si, potencialmente, a capacidade de superar a si mesmos, criando novas estruturas, novos comportamentos, novas formas de interagir. E é justamente essa auto-superação criativa em busca do novo que, em seu devido tempo, leva a um desdobramento ordenado da complexidade, que parece ser uma propriedade fundamental da vida, uma característica básica da dança do universo.

“Quem dança
Não é quem levanta poeira
Quem dança
é quem reinventa o chão”

(Mia Couto)

Fonte: PISTÓIA, Lenise Henz Caçula. “A perspectiva sistêmica da vida”, em Gregory Bateson e a educação: possíveis entrelaçamentos. Tese de Doutorado em Educação, UFRGS, 2009, p. 74-76.

Marly Segreto