“Da mesma maneira que a terra e os outros elementos servem aos múltiplos usos dos inumeráveis seres espalhados no espaço infinito, assim possa eu, de alguma maneira, ser útil aos seres que ocupam o espaço, enquanto todos não forem libertados.
Como um cego que encontra uma pérola em um montão de lixo, assim se levantou em mim, eu não sei como, este pensamento do despertar, esta elevação do coração.
É um elixir nascido para abolir a morte dos mundos, um tesouro inexaurível para eliminar a miséria do mundo, um remédio incomparável para curar as doenças do mundo, uma árvore para descansar o mundo cansado de errar no caminho da vida, um ponto aberto a tudo o que vem para conduzi-lo fora das vias dolorosas, uma lua espiritual que se levantou para abrandar a queimadura das paixões do mundo, um grande sol para dissipar as trevas da ignorância.
Para a caravana humana que segue a rota da vida, esfaimada de felicidade, eis que está preparado o banquete em que todos poderão saciar-se novamente.
Hoje, na presença de todos os santos, convido o mundo ao estado do despertar e da pacificação, e para isso estou pronto a assumir o fardo de todos os sofrimentos, estou resolvido, eu o suportarei, não me esquivarei, nem fugirei, não tremo, não tenho frêmitos de pavor, não temo, não estou com medo, nem recuo, nem me desencorajo. Por que isso? Porque esse é o meu voto.
(…) Possa eu ser o protetor dos abandonados, o guia daqueles que caminham e, para aqueles que desejam a outra margem, ser a barca, o banco de areia, a ponte. Que eu possa ser a lâmpada para aqueles que têm necessidade de lâmpada, leito para aqueles que têm necessidade de leito, escravo daqueles que têm necessidade de escravo, a pedra do milagre, a planta que cura, a árvore dos anseios, a vaca dos desejos.”
Fonte: LELOUP, Jean-Yves. A montanha no oceano: meditação e compaixão no budismo e no cristianismo. Rio de Janeiro: Vozes, 2002 (Um extrato do Shantideva, p. 140-141-144).
Feliz Páscoa!
Marly


