“A CONTRADIÇÃO É A TEXTURA DO UNIVERSO”
Essa é a idéia central do pensamento de Lupasco, diz Basarab Nicolescu, ao falar dos impactos da filosofia do 3º incluído de Stéphane Lupasco (1900-1988) na entrevista feita por JL ML para Ouvertures, por ocasião do colóquio internacional “À la confluence de deux cultures: Lupasco aujourd’hui” [Na confluência de duas culturas: Lupasco hoje], realizado em 24 de março de 2010.
Destacamos algumas respostas dadas por Nicolescu nessa entrevista:
(…) Tudo o que está no mundo, e não somente o que está em nosso pensamento ou em nossas proposições, resulta de uma tensão entre os contraditórios.
(…) O mundo não é uma unidade fusional e harmoniosa de tipo Parmênides, mas uma unidade de tipo Heráclito, na qual a tensão é constitutiva das coisas. Há sempre um terceiro (o terceiro incluído) entre as coisas e eventos opostos que permite considerá-los simultaneamente, mesmo que eles sejam inconciliáveis (salvo, é o que acrescento pessoalmente, em outros níveis de realidade). Um exemplo célebre é a dualidade onda-corpúsculo, que é um dos fundamentos da mecânica quântica…
(…) A mecânica quântica não utiliza esse termo [3º incluído]: ela parte do “princípio de superposição”. Muitos homens de ciência admitem essa realidade provada sem poder verdadeiramente representá-la. Na física clássica, há ou sim, ou não; ou um elétron vai para a direita, ou para a esquerda, não os dois ao mesmo tempo. Em mecânica quântica, sim e não devem ser pensados juntos.
O que os cientistas tiveram dificuldade em aceitar foi a ampliação dessa estranha constatação aos níveis da psicologia, da história, da política ou da sociedade.
Um pensador como Edgar Morin, com sua teoria da complexidade, apreendeu bem a dimensão do pensamento de Lupasco, que coloca a contradição no centro das coisas.
Ele oferece alguns exemplos concretos de aplicação do 3º incluído:
(…) no universo social, a questão dos conflitos que nos perturbam, seja no meio escolar ou no plano político-religioso. A mediação é a busca desse terceiro a ser incluído entre dois pensamentos que se opõem para se ter acesso a um outro nível de realidade em que o compromisso seja possível.
(…) em política, pode-se fazer viver o terceiro incluído: o que é de interesse da nação, por exemplo, pode favorecer a ultrapassagem das convicções partidárias. Ou a feminilização dos postos de alta responsabilidade.
Ele utiliza a palavra “feminilização” no sentido metafórico e simbólico, e não no sentido de gênero, mas da abertura (em todos!) para os valores geralmente sustentados pelas mulheres.
Lembrando o sketch de Raymond Devos – em que um homem tenta a todo custo separar a duas extremidades de um bastão cortando-o várias vezes – ele diz: Entre as duas extremidades, haverá sempre o terceiro, infinitamente incluído.
O 3º incluído também pode ser pensado na estética, na arte em geral e na espiritualidade. Mas não numa espiritualidade atrelada às religiões: trata-se de uma espiritualidade laica, livre em sua busca do terceiro incluído entre mim e o mundo, e que pode nos reconciliar. (…) uma espiritualidade sem dogma.
Esse pensamento, que é complexo, poderia ser ensinado de modo simples?
Sim, isso é feito mesmo sem saber, com os contos de fadas ou com os oxímoros, nos quais os opostos aparecem juntos. As crianças aceitam isso sem nenhum problema. Elas não têm o espírito esclerosado pelo pensamento binário, que é um pensamento de exclusão. Efetivamente, quando se exclui o outro, não se exclui somente o outro exterior, mas também o outro que está dentro de nós e o terceiro que faz a ponte entre o outro e nós.





