“(…) Entre as imensas descobertas do século XX em dois campos específicos, nosso cérebro e os sistemas naturais, guardemos presente as repercussões que têm – ou poderiam ter – uma incidência sobre a problemática educativa, já que elas modificam um grande número de noções fundamentais , indispensáveis para as hipóteses de trabalho da pedagogia, das ciências cognitivas e da epistemologia.
Mencionemos:
– A reavaliação de certos conceitos “fósseis”: causalidade, objetividade, origem, realidade, temporalidade;
- Os conceitos que necessitam ser “revisitados” (ou “esclarecidos” ou “desempoeirados”): os verdadeiros/falsos, debates sobre o inata/o adquirido, a informação, o real, , as origens (do homem, da linguagem) e o mito “indoeuropeu”;
- A emergência de conceitos plurais: níveis de realidade, lógicas, inteligências, memórias, linguagens;
- A emergência de conceitos inovadores: relatividade (Eistein – 1904!), campo, sistema, estruturação, auto-organização, potencialização e atualização, complexidade e complexificação, interface, complementariedade dos contraditórios, cointerdepêndencia, transdisciplinaridade, não linearidade, princípio de incerteza, indeterminação, caos;
- No campo das ciências do vivente: a descoberta de nossa estrutura fundamental, o ADN, os trabalhos sobre o genoma,os neurotransmissores, as fabulosas potencialidades de aprendência, de inovação, de compensação, de reparação de nosso cérebro e de nosso corpo inteiro.

Numerosos defensores do humanismo ressaltam que a crise que atravessa a humanidade, no fim do que convencionamos chamar século XX, tem por denominação energia, inflação, desemprego, pobreza, precariedade, exclusão, poluição, fragmentação, desintegração do laço social e familiar e outras ameaças opressoras. Mas a mundialização da crise econômica, social e política é, na realidade, uma conseqüência da crise de percepção que atravessamos: ainda não compreendemos que vivemos num mundo onde os fenômenos biológicos, fisiológicos, psicológicos, sociológicos e ambientais são interdependentes. Nossa sociedade ainda não se conscientizou que o ser humano, querendo ou não, sabendo ou não, também é, e sempre será, dependente das leis de equilíbrio da natureza e do vivente, ou seja do (s) ritmo (s) do vivente, etimologicamente “à ce qui coule” (ao que flui).
Trata-se agora de ficar atento à história do vivente, suas exigências de equilíbrio e de troca que nos permitem, como diz de maneira justa Albert Jaquard “não permanecer passivo, mas imaginar o amanhã”.
Reinventar o Ofício de Aprender. TROCME-FABRE, Hélène. TRIOM, 2010. p.285-300, p.53